Em apresentação no Brasil, Patrice Bäumel mostrou por que é um dos artistas mais completos da atualidade
09/01/2018 - 11h09 em Notícias
 

Tocando no Warung no final de dezembro, o DJ holandês surpreendeu em evento

que ainda contava com nomes do calibre de Carl Craig e ANNA

 

Em uma temporada de verão repleta de grandes artistas e retornos aguardados, o dia 26 de dezembro de 2017 ficou marcado no Warung Beach Club pela aposta em artistas que mesclam partes importantes da história e do futuro dentro da música eletrônica global. É preciso delinear onde cada um dos dois nomes que considero principais da noite se enquadram nessas características mencionadas.

Falar de história é falar de Carl Craig. A lenda de Detroit demorou para estrear na casa, porém agora já estava em sua terceira apresentação. Receber um artista com tanta bagagem e respeito no cenário mundial é sempre uma honra para qualquer club do mundo. Porém, Carl teria que dividir horário com outro nome no Garden, e às vezes só a história é incapaz de tomar as atenções de um público que não estava em grande quantidade.

Patrice Bäumel assumiria o Garden como a outra grande atração do evento após ter provavelmente o melhor ano de sua carreira. O respeitado residente do antigo club Trouw, de Amsterdã, e um dos produtores mais originais do momento era aguardado por muitos aqui no Sul — um retorno necessário e musicalmente muito bem alinhado com a identidade do Templo.

Para mim, era o artista mais cotado para se assistir no ano. Tinha ouvido muitas coisas boas sobre sua capacidade comandando uma pista, porém, só é possível saber tendo sua própria experiência. Os dois artistas começaram quase no mesmo tempo, e cada frequentador teve que escolher um lado para se entreter, provavelmente sabendo que a escolha seria para o resto da noite, visto a capacidade que cada um deles tem de construir grandes sets em pistas mundo afora.

 

 

Porém, antes de tudo, tivemos ótimos artistas nacionais comandando as duas pistas, e é preciso mencioná-los. Com um set de nada menos que três horas e meia, os residentes não oficiais do Warung, Danee e Edu Schwartz debutaram um B2B que havia sido bastante comentado na semana da festa pelo público local. Quando comecei a ouvi-los, por volta das 23h, logo nas primeiras faixas observei que eles estavam em uma boa sintonia, cada um buscando se ajustar ao outro e levando suas ideias musicais de encontro.

Uma boa amostragem de música conceitual, com momentos sérios e outros dançantes, que deixou a pista muito bem ambientada para a continuação da noite. O melhor de tudo? São DJs que nasceram da cena que se desenvolveu a partir da influência do club no litoral e vale do itajaí.

 

 

Em seguida, a brasileira radicada em Barcelona ANNA assumiu o comando do Inside. Ela tem sido uma constante nas noites de techno do club, sendo sempre uma boa peça para fazer a transição até o artista principal. Deu start em seu conjunto com um vocal metálico e levemente robótico, que estava sobre uma camada obscura de sintetizadores. Quando o restante dos elementos entrou em ação, um baixo rápido e pesado, todos perceberam que era o cartão de visitas que ela imprimiria para as duas horas lhe designadas. Ah, a música se tratava de “Unfold”, de Wehbba — uma belo trabalho.

 

Às 03h30, minha escolha, que só poderia ser uma, foi pelo nome que mais me chamou atenção em 2017. Patrice Bäumel já tinha feito outros dois shows no club muito elogiados, porém somente agora pude tirar a prova real. Seu set começou bem cadenciado e sério, com alguns toques tribais fazendo parte da cena. Confesso que nunca fui fã do Garden, porém é preciso dizer que ao longo do tempo o espaço criou sua própria alma — diferente de cima, é verdade, mas também capaz de ajudar a criar magia entre artista e público. Para isso acontecer, precisa passar fundamentalmente por quão à vontade o DJ se sente.

Quanto a isso, pode-se dizer que Patrice parecia em casa. Sua atitude concentrada em grande parte do set era intercalada com certos momentos em que ele deixava clara sua satisfação em jogar ali. A pista não estava lotada, era perfeita para todos. O soundsystem estava brilhando, e Bäumel aos poucos foi deixando toques progressivos ganharem espaço na apresentação. A partir do momento em que ele sentiu que tinha criado a atmosfera ideal — lembrando que precisou começar uma pista do zero —, pôde finalmente soltar suas armas para a noite. Uma delas, “Atacama”, obra produzida em parceria com Audiofly.

 

A partir das 04h, com ritmo já estabelecido, era visível a sintonia das pessoas em resposta ao seu trabalho muito bem elaborado, com mixagens longas e bem pensado. Todos vibravam a cada passagem mais emotiva. Em seguida, entra em ação um dos remixes do ano: “Sirens”. A faixa é uma aula de Bäumel no estúdio sobre como se deve aproveitar o potencial máximo de um vocal e colocá-lo dentro de um conjunto de elementos eletrônicos que fazem sentido. É daquelas musicas que você canta junto, e se arrepia com os sintetizadores que entram em cada break. Sua linha de baixo, rápida e bem firme, é capaz de te jogar para frente na pista. Que momento!

Continuando o trabalho, Patrice parecia que ainda não tinha mostrado tudo; ele continua girando seu set, buscando o momento ideal para mostrar algo especial. Se antes trouxe uma produção nova, agora tinha preparado para o último arremate antes do amanhecer: um clássico daqueles. “Mongoose” pertence ao hall das músicas atemporais, e que talvez não esteja entre as primeiras lembradas do seu criador, mas certamente é uma das mais singulares e originais que o artista já fez. Sasha, uma das grandes influencias de Bäumel, produziu essa maravilha em um dos melhores momentos de sua carreira, sendo lançada em 2007 por sua antiga label emFire. Eu simplesmente não sabia como reagir — sempre imaginei poder ouvi-la na pista, e finalmente estava acontecendo. Nunca apostaria antes do show que Bäumel seria o cara que iria jogá-la, porém quando aconteceu, ela soou algo totalmente alinhado com sua proposta sonora.

Entramos no amanhecer com um clima nebuloso e de céu fechado, porém a atmosfera estava completamente preenchida com o sentimento das manhãs de verão. Por volta das 06h30, Patrice segura um pouco as energias e começa a preparar o fechamento. Suas últimas músicas foram mixadas de forma desconcertante, quando o DJ está em seu ápice técnico e munido de um público beirando a perfeição. Para o fechamento, escolhe o mesmo clássico que usou para fechar seu aclamado Essential Mix pela BBC Radio 1Groove Armada em “History”, com o excelente remix de Still Going. Essa é daquelas que não nos esqueceremos tão cedo.

 

As impressões pós-show eram unânimes. Patrice Bäumel se coloca como um dos artistas mais completos da atualidade, abusando de excelência tanto quando se dispõe a produzir como quando está no comando de um dancefloor distante na América do Sul. No dia 26, o passado de Carl Craig estava assombrando o Inside com o fabuloso techno de Detroit, porém o futuro brilhante que o nome do Garden tem pavimentado parece ter deixado marcas mais vibrantes.

 

 

Fonte: Phouse - https://www.phouse.com.br/patrice-baumel-warung/

Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini

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